terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Abyssus abyssum invocat

Tirou o chapéu. Costumava ir cinco vezes ao banheiro, sendo duas delas para uso exclusivo da pia. Trilhou naquele dia um caminho igual, sem avantes, mas também sem retaguardas. Caminhou esquivando-se do sol; figurou papel invisível por três horas em baixo do próprio edredom. Lhe agradavam as narrativas curtas ,  admirando-se com o que se podia fazer entre dois pontos, ou entre ponto e vírgula, ou entre parênteses, ou entre, suas favoritas pela permissividade, as aspas. Contava sua vida a si mesmo, sempre dizendo de forma fragmentária e em sincronia aos movimentos: “deu dois passos”; “curvou a cabeça em direção as nuvens”; “olhou assombrado para sua esposa como se surgissem dela formigas buñueliando as mãos". Era uma forma de não cansar-se de si mesmo: ser na terceira pessoa. Admitiu que as coisas que não existiam eram sempre melhores e reticenciou... Viveu bem. Até um dia em que encontrou sobre a mesa um livro sobre ele, com todos os seus passos descritos. Aquilo era uma sentença. Morreu mise an abyme

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